Depois de algum tempo parado, sem escrever, devido ao fim do
período na grande escola de tecnologia indígena que é a UFES, o
índio Belsholff volta a fazer seus programas e desa vez na sua
terra. Ele encontra uma cidade mudada, pelo menos no nome, e agora é
carinhosamente chamada de GuaraParis. Já os problemas continuam os
mesmos, e segundo o prefeito, é tudo culpa do amontoado de turistas
farofeiros que vem pra cá, há no mínimo, 30 anos. Enfim, não vem ao
caso. O que não muda são as belezas desse litoral cheio de
enseadas, e é pra uma delas que o índio foi esses dias: A Enseada
Azul, no litoral sul de Guarapari.
Primeiro dia útil de férias. A gente se sente meio peixe fora
d'água. Não tem mais compromissos com trabalho, estudos,
supermercado. Não tem mais ônibus e os congestionamentos das
grandes cidades (por esse aspecto, Guarapari já é grande então!).
Você que estava acostumado a tudo isso pergunta retoricamente: –
“Índio fazer o quê?!”; e o Índio moderno que é, responde: –
“Índio pedalar calçadão da praia!”. Lá se vão mais de 10 km
de pedal pela Praia do Riacho, com o som das ondas, dos carros na
rodovia, e do vento, que ao se misturarem, se tornam apenas um
barulho qualquer, indecifrável e imperceptível ao fundo, como se
perdêssemos um sentido e com isso os outros quatro se tornassem mais
agudos, prazerosos, como a visão, que via em meio a restinga o azul
do mar e o tato que muitas vezes parecia tocar aquilo que se via.
Depois desse longo e gostoso pedal, chegamos à orla da região.
Bem diferente das orlas tradicionais que foram revitalizadas, as
orlas da região possuem pouquíssimos quiosques, e à moda antiga,
ainda. A região ainda sofre muita especulação imobiliária, no
entanto, parece que não há alarde para que essa região receba
modernização. A intenção é parecer o mais natural possível,
inclusive com algumas ruas ainda de areia, como na Praia da Guaibura,
que por sinal no seu fim, possui um pequeno morro de fácil acesso,
onde é possível subir e ter uma bela vista da região percorrida
até então, bem como dos navios atracados em mar aberto e o reflexo
do sol apontando a praia de Peracanga. Vale ressaltar que a região,
apesar de bonita, parece não ser segura, uma vez que é deserta e
próxima ao bairro. Encontrei uma viatura da polícia no local.
Portanto, cautela ao desbravar essa bela vista.
![]() |
| Li por aí que essa é a Praia de Barrista... |
Ao final da praia de Peracanga, existe um morro com uma trilha
bem fechada. Nesse momento o sangue de índio estava incomodado. O
índio olhou pra trilha, olhou pra bike, olhou para as marchas leves
da magrela e não resistiu. Esqueceu quais bichos poderia encontrar
alí e começou a pedalar morro acima. Logo de cara uma bela visão
da Praia da Bacutia, praia essa no mesmo estilo da anterior. Tal
visão aliás, privilegiada, que o índio esqueceu de registrar de
propósito (mentira!) só pra atiçar a curiosidade dos leitores.
Logo depois, a sensação de estar em um local pouquíssimo explorado
bateu. A trilha se fechava cada vez mais, os braços eram cortados
pelas folhas das plantas e o túnel de folhas mais parecia um poço
sem fundo. Mas por sorte ele tinha fundo e era azul. Mais uma vez uma
visão maravilhosa do mar, dessa vez mostrando um pouco mais de
Meaípe, e do litoral norte de Anchieta. Na hora da descida, o misto
de medo com adrenalina corria nas veias e artérias pedindo pra
soltar o freio de vez ao mesmo tempo que tinha que me manter vivo.
Essas sensações extremas são combustível para querer mais.
Aliás como esquecer de outro episódio desse: descer o morro da
Praia dos Padres de bike. Aliás, esquecer não vai rolar, pois a
marca vai ficar no corpo pra sempre. Mais uma cicatriz pra coleção!!!
Que tal descer o morro com todo o freio puxado, devagarzinho, e de
repente você perceber que a roda traseira acaba de levantar do chão
e que você vai virar um backflip de cara no chão? Nãããão! Dessa
vez não!!! Mas a perna direita sofreu os danos de uma pedaleira de
metal na panturrilha. Três degraus até conseguir controlar a
situação, e três crateras da pedaleira marcadas pra sempre.
Eu
devia chorar, mas ri. Devo tá acostumado com a situação de me
machucar em duas rodas. O sangue jorrava, mas quem se importava? O
negócio é sentir adrenalina nem que seja pra não cair no chão.
![]() |
| Se tivesse encontrado uma onça na trilha, eu tava mais inteiro =( |
Valeu dar o sangue para chegar nesse lugar. A praia possui
enormes árvores e é um belo lugar para ficar o dia todo. Há quem
leve redes para dormir, há quem leve tudo (e é preciso!), mas toda
essa farofada é recompensada pela paz que o lugar traz. Não há os
problemas que uma praia grande traz, e o contato com a natureza, a
mistura do verde com o azul e o cinza das pedras revitaliza as
energias. Saí dali com a perna operada, mas com a alma lavada!
![]() |
| Quem não quer essa sombra e água fresca??? |
Ao fim, era hora de voltar pra casa. A vinda que foi tranquila,
calma, com belas paisagens, a favor do vento, se transformou no
inferno sobre o pedal. Mesmo diminuindo a resistência do ar como um
ciclista de speed (tentando né!), o esforço era enorme, além do
mais, o trecho é uma constante subida pouco inclinada, mas que para
quem não tem preparo físico de ciclista, é muito ruim. Isso mostra
que preciso melhorar muito o preparo caso queira continuar o
desbravamento sobre duas rodas e dois pedais. Depois de duas paradas
na volta e mais 15 km, enfim estava em casa. As dores estavam alí, é
bem verdade, mas o objetivo estava cumprido. Muito mais que isso, o
prazer estava consumado. Mais um pedaço da minha terra foi
explorado.
Prejuízo
per capita: It's totally free!!!
O trabalho IaNoMoney Bike Life 002 – Costa Sul de Guarapari de Ianomoney está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.


