1.1.15

IaNoMoney Bike Life 002 – Costa Sul de Guarapari




Depois de algum tempo parado, sem escrever, devido ao fim do período na grande escola de tecnologia indígena que é a UFES, o índio Belsholff volta a fazer seus programas e desa vez na sua terra. Ele encontra uma cidade mudada, pelo menos no nome, e agora é carinhosamente chamada de GuaraParis. Já os problemas continuam os mesmos, e segundo o prefeito, é tudo culpa do amontoado de turistas farofeiros que vem pra cá, há no mínimo, 30 anos. Enfim, não vem ao caso. O que não muda são as belezas desse litoral cheio de enseadas, e é pra uma delas que o índio foi esses dias: A Enseada Azul, no litoral sul de Guarapari.

Primeiro dia útil de férias. A gente se sente meio peixe fora d'água. Não tem mais compromissos com trabalho, estudos, supermercado. Não tem mais ônibus e os congestionamentos das grandes cidades (por esse aspecto, Guarapari já é grande então!). Você que estava acostumado a tudo isso pergunta retoricamente: – “Índio fazer o quê?!”; e o Índio moderno que é, responde: – “Índio pedalar calçadão da praia!”. Lá se vão mais de 10 km de pedal pela Praia do Riacho, com o som das ondas, dos carros na rodovia, e do vento, que ao se misturarem, se tornam apenas um barulho qualquer, indecifrável e imperceptível ao fundo, como se perdêssemos um sentido e com isso os outros quatro se tornassem mais agudos, prazerosos, como a visão, que via em meio a restinga o azul do mar e o tato que muitas vezes parecia tocar aquilo que se via.

Depois desse longo e gostoso pedal, chegamos à orla da região. Bem diferente das orlas tradicionais que foram revitalizadas, as orlas da região possuem pouquíssimos quiosques, e à moda antiga, ainda. A região ainda sofre muita especulação imobiliária, no entanto, parece que não há alarde para que essa região receba modernização. A intenção é parecer o mais natural possível, inclusive com algumas ruas ainda de areia, como na Praia da Guaibura, que por sinal no seu fim, possui um pequeno morro de fácil acesso, onde é possível subir e ter uma bela vista da região percorrida até então, bem como dos navios atracados em mar aberto e o reflexo do sol apontando a praia de Peracanga. Vale ressaltar que a região, apesar de bonita, parece não ser segura, uma vez que é deserta e próxima ao bairro. Encontrei uma viatura da polícia no local. Portanto, cautela ao desbravar essa bela vista.

Li por aí que essa é a Praia de Barrista...
Após passar por essa parte, o índio passou a percorrer algumas vielas do bairro, e encontrou uma saída para uma praia que até então não conhecia: a Praia de Barrista. É uma pequena praia de uns 15 metros de extensão, em meio a algumas casas na pedra com águas calmas e uma vista para o morro da praia de Peracanga. Uma paz, quase inexplorada, com certeza o mais bonito achado que tive esse dia. Aliás, por falar em Peracanga alí atrás, o próximo destino era exatamente esta praia. Seguindo a ideia de orlas ao natural, essa praia possui árvores de restinga que separam o calçadão simples da faixa de areia, além de algumas outras não nativas, mas que fazem uma bela sombra. Sou suspeito para falar desse tipo de configuração “ao natural” das praias. Não dá pra negar que há destruição da restinga, com as construções e tal, porém, o fato de ainda haver árvores, sem quiosques, e mesmo assim o comércio na praia acontecer normalmente é algo a se louvar. A praia em si segue o padrão das praias da enseada. Águas quentes, calmas e convidativas, que até por toda configuração apresentada, se tornou um point muito visado pelas classes mais altas de moradores e turistas, afinal, reúne além do já citado, a exclusividade que o dinheiro paga.

Ao final da praia de Peracanga, existe um morro com uma trilha bem fechada. Nesse momento o sangue de índio estava incomodado. O índio olhou pra trilha, olhou pra bike, olhou para as marchas leves da magrela e não resistiu. Esqueceu quais bichos poderia encontrar alí e começou a pedalar morro acima. Logo de cara uma bela visão da Praia da Bacutia, praia essa no mesmo estilo da anterior. Tal visão aliás, privilegiada, que o índio esqueceu de registrar de propósito (mentira!) só pra atiçar a curiosidade dos leitores. Logo depois, a sensação de estar em um local pouquíssimo explorado bateu. A trilha se fechava cada vez mais, os braços eram cortados pelas folhas das plantas e o túnel de folhas mais parecia um poço sem fundo. Mas por sorte ele tinha fundo e era azul. Mais uma vez uma visão maravilhosa do mar, dessa vez mostrando um pouco mais de Meaípe, e do litoral norte de Anchieta. Na hora da descida, o misto de medo com adrenalina corria nas veias e artérias pedindo pra soltar o freio de vez ao mesmo tempo que tinha que me manter vivo. Essas sensações extremas são combustível para querer mais.

Aliás como esquecer de outro episódio desse: descer o morro da Praia dos Padres de bike. Aliás, esquecer não vai rolar, pois a marca vai ficar no corpo pra sempre. Mais uma cicatriz pra coleção!!!
Se tivesse encontrado uma onça na trilha, eu tava mais inteiro =(
Que tal descer o morro com todo o freio puxado, devagarzinho, e de repente você perceber que a roda traseira acaba de levantar do chão e que você vai virar um backflip de cara no chão? Nãããão! Dessa vez não!!! Mas a perna direita sofreu os danos de uma pedaleira de metal na panturrilha. Três degraus até conseguir controlar a situação, e três crateras da pedaleira marcadas pra sempre. Eu devia chorar, mas ri. Devo tá acostumado com a situação de me machucar em duas rodas. O sangue jorrava, mas quem se importava? O negócio é sentir adrenalina nem que seja pra não cair no chão.

Valeu dar o sangue para chegar nesse lugar. A praia possui enormes árvores e é um belo lugar para ficar o dia todo. Há quem leve redes para dormir, há quem leve tudo (e é preciso!), mas toda essa farofada é recompensada pela paz que o lugar traz. Não há os problemas que uma praia grande traz, e o contato com a natureza, a mistura do verde com o azul e o cinza das pedras revitaliza as energias. Saí dali com a perna operada, mas com a alma lavada!

Quem não quer essa sombra e água fresca???
Ao sair da Praia dos Padres e descer um morro asfaltado à 50 km/h, chego ao balneário de Meaípe. Lugar de uma praia que mais parece um lago, onde o pôr do sol faz do tal “lago” um lago de ouro com seus raios. Um convite para cair na água que teve que ser negado em prol da saúde das peças da minha bike. Mas não é só de praia que esse lugar vive. Além das boates que no verão estão sempre lotadas, há também a culinária tipica de uma colônia de pescadores. É tudo quanto é petisco que venha do mar. O cheiro é maravilhoso e a fome bate instantaneamente, até porque, o índio já pedalava há três horas e nesse dia ele deu mole com a alimentação. Maaaaas eu tinha que resistir afinal o blog prega o turismo barato e o cartão de crédito já tava estourado.

 Ao fim, era hora de voltar pra casa. A vinda que foi tranquila, calma, com belas paisagens, a favor do vento, se transformou no inferno sobre o pedal. Mesmo diminuindo a resistência do ar como um ciclista de speed (tentando né!), o esforço era enorme, além do mais, o trecho é uma constante subida pouco inclinada, mas que para quem não tem preparo físico de ciclista, é muito ruim. Isso mostra que preciso melhorar muito o preparo caso queira continuar o desbravamento sobre duas rodas e dois pedais. Depois de duas paradas na volta e mais 15 km, enfim estava em casa. As dores estavam alí, é bem verdade, mas o objetivo estava cumprido. Muito mais que isso, o prazer estava consumado. Mais um pedaço da minha terra foi explorado.

Prejuízo per capita: It's totally free!!!

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