O
primeiro texto à vera desse novo canal não se trata de um programa
de índio para a grande maioria da população da Grande Vitória. E,
particularmente, o índio Belsholff aqui acha que todos um dia
deveriam passar por tal experiência, porque, cara, foi um choque de
realidade gigante. Eu e o índio Andrade resolvemos sair da nossa
zona de conforto e ir almoçar no Restaurante Popular de Vitória
– RPV. Agora, vamos contar as nossas impressões.
Apesar de vivermos com menos de um salário mínimo por mês e estarmos acostumados com outro restaurante popular – o Restaurante Universitário (RU da UFES, em Goiabeiras) – temos de reconhecer que os mundos são completamente diferentes. Até pelas regiões que por eles são atendidas (Jucutuquara vs. Jardim da Penha), a grande massa de pessoas que frequenta o RU é de estudantes (lembrando que o espaço também é aberto à comunidade pelo preço de R$ 4,50 por refeição), atraídos pela comodidade e preço, podendo, inclusive, ver alguns de famílias de alto poder aquisitivo comendo por lá. Nada impediria que a high society também se alimentasse no RPV, mas, neste caso, o impedimento é psicológico. Com o preço simbólico de R$ 1,00, sua clientela é formada maciçamente pelos trabalhadores da mão de obra
pesada e por famílias de baixa renda. Pela proximidade
com o IFES de Vitória e com o Colégio Salesiano, também foi
possível ver por lá alguns estudantes como nós. No entanto, a
sensação que tivemos é a de que o local é evitado pelos alunos
dessas instituições. Não dá para esconder que o preconceito da
muitos é gritante.
E dá pra perceber o porquê disso (perceber é bem diferente de aceitar e de concordar). Se tivéssemos apenas os olhos de uma "pessoa média", ficaríamos apenas chocados com os mendigos colocando comida em sacos de lixo, para comer mais tarde, e com as pessoas suadas, comendo montanhas de comida em um terço do tempo em que comemos metade de nossos pratos tipo “morrinho”.
Porém, com uma passada pela mente daqueles que ali se encontram, percebe-se que aquela é a única refeição forte que terão durante todo o dia. Também se percebe que a pressa é do tamanho da fome e que o caminhão tá cheio de encomenda pra entregar até às 18h. Resumindo: apenas nós dois estávamos de fato “passeando” por lá, com o conforto de duas semanas de férias e sabendo que temos o RU para almoço e janta. Nossa mente estava chocada com aquela realidade tão diferente. Porém, enquanto estávamos tranquilos "matando" a nossa "fome", alguns ali comiam loucamente sem pensar no amanhã, como diria o poeta. Para os preconceituosos, a realidade indigesta causa azia.
É importantíssima a existência destes espaços como forma de garantir uma boa alimentação para quem necessita. E quem um dia achou que comer por um real era o fim do poço está muito enganado! Fim do poço é não comer para sustentar uma imagem, um vício. Os que comem por lá enchem a boca (de fato!) para falar do que têm, da diferença que aquele restaurante faz em suas vidas, sem se preocuparem com rótulos e cuidado apenas daquilo que lhes mata naquele momento: A FOME.
Comer é uma equação simples: não deveria envolver variáveis complexas como a sua etiqueta.
Apesar de vivermos com menos de um salário mínimo por mês e estarmos acostumados com outro restaurante popular – o Restaurante Universitário (RU da UFES, em Goiabeiras) – temos de reconhecer que os mundos são completamente diferentes. Até pelas regiões que por eles são atendidas (Jucutuquara vs. Jardim da Penha), a grande massa de pessoas que frequenta o RU é de estudantes (lembrando que o espaço também é aberto à comunidade pelo preço de R$ 4,50 por refeição), atraídos pela comodidade e preço, podendo, inclusive, ver alguns de famílias de alto poder aquisitivo comendo por lá. Nada impediria que a high society também se alimentasse no RPV, mas, neste caso, o impedimento é psicológico. Com o preço simbólico de R$ 1,00, sua clientela é formada maciçamente pelos trabalhadores da mão de obra
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| Os gatos pingados do IFES. |
E dá pra perceber o porquê disso (perceber é bem diferente de aceitar e de concordar). Se tivéssemos apenas os olhos de uma "pessoa média", ficaríamos apenas chocados com os mendigos colocando comida em sacos de lixo, para comer mais tarde, e com as pessoas suadas, comendo montanhas de comida em um terço do tempo em que comemos metade de nossos pratos tipo “morrinho”.
Porém, com uma passada pela mente daqueles que ali se encontram, percebe-se que aquela é a única refeição forte que terão durante todo o dia. Também se percebe que a pressa é do tamanho da fome e que o caminhão tá cheio de encomenda pra entregar até às 18h. Resumindo: apenas nós dois estávamos de fato “passeando” por lá, com o conforto de duas semanas de férias e sabendo que temos o RU para almoço e janta. Nossa mente estava chocada com aquela realidade tão diferente. Porém, enquanto estávamos tranquilos "matando" a nossa "fome", alguns ali comiam loucamente sem pensar no amanhã, como diria o poeta. Para os preconceituosos, a realidade indigesta causa azia.
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| É, não deu! |
Azia que não tivemos!
A comida por sinal é boa e alguns itens do cardápio merecem
destaque: o índio Belsholff gostou do feijão de calda e da carne
assada; já o índio Andrade curtiu o arroz soltinho e a salada com
couve, vinagrete e cenoura. Não vamos aqui fazer da política do “é
gostoso porque é barato”, mas é gostoso desde que não se espere
o tempero e a variedade de restaurante a quilo. Ainda tivemos direito
a suco de acerola (meio aguado, é bem verdade) e a uma banana-maçã
de sobremesa, que foi rejeitada na mesa em que estávamos por aqueles
que se sentaram conosco.
Mesa por sinal que
carecia de limpeza, mas isso não se repetia com os demais itens do
ambiente. Logo na entrada haviam torneiras, sabonete líquido e papel
para a higiene (que poucos usavam, infelizmente), além dos pratos,
limpos e quentes, indicando que acabavam de sair da máquina de
limpeza. As funcionárias estavam vestidas como manda o figurino e
serviam pratos bem grandes, o que devia satisfazer a grande maioria
do público cativo do RPV, mas que, para nós, resultou em comida
desperdiçada. Algumas "tias" perguntavam se queríamos ou
não certos itens do cardápio, mas todas, ao receberem um singelo
"obrigado", abriam o sorriso como se aquilo fosse um misto
de raridade e de valorização pelo seu trabalho.
Ao final do "rock",
tiramos umas poucas fotos para guardar aquela experiência e algumas
pessoas até acharam que estávamos tirando fotos suas. Contudo, o
problema logo foi resolvido e despertamos uma certa simpatia das
pessoas que se sentiram inicialmente incomodadas. Explicamos o motivo
das fotos e até pudemos perceber um “vamos ficar famosos” na
cabeça de um deles. Serviu de alerta para os próximos programas
Resultado final:
satisfeitos com a realização de uma vontade, satisfeitos de tanto
comer, satisfeitos com o choque de realidade e com as novas
concepções na cabeça – estas, que estavam apenas nos livros e
nas palavras de quem vivia a situação.
É importantíssima a existência destes espaços como forma de garantir uma boa alimentação para quem necessita. E quem um dia achou que comer por um real era o fim do poço está muito enganado! Fim do poço é não comer para sustentar uma imagem, um vício. Os que comem por lá enchem a boca (de fato!) para falar do que têm, da diferença que aquele restaurante faz em suas vidas, sem se preocuparem com rótulos e cuidado apenas daquilo que lhes mata naquele momento: A FOME.
Comer é uma equação simples: não deveria envolver variáveis complexas como a sua etiqueta.
Reportagem
com vídeo feita pelo GazetaOnline com um chef de cozinha no RPV:
http://is.gd/OCPWbM
Trilha
sonora: Coldplay – Mylo Xyloto (álbum)
O trabalho IaNoMoney Gourmet 001 – Restaurante Popular de Vitória de IaNoMoney está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.


